sábado, 9 de outubro de 2010

Sobre partir e ficar.


A vida é mesmo mágica, chegada, partida, encontro, despedida. São frações de segundo, capítulos, fascículos. E sabemos quando estamos diante de um momento perfeito.Mas, o que mais me chama a atenção, e por isso, amedronta e fascina é o verbo partir. Partimos de um lugar ao outro, da casa para rua, do trabalho ao botequim. Partimos a nós mesmos, afastando-nos do nosso cerne, indo ao encontro do outro: compartilhamos.

E quando não se sabe compartilhar, aí sim, é a triste hora: partir, seja do trabalho, da faculdade, de uma amizade, ou da vida de quem um dia amamos. O amor terminou? Quem poderá dizer! Ele nunca existiu? Só quem sente saberá! Mas, aquele que amava teve que partir. Não foi em um dia, segundo, ou momento, foi um processo, silencioso, cruel com a outra parte, que vê na partida algo inesperado e indesejado.

Não sei, mas penso que quando vivemos algo que sabemos ser efêmero aproveitamos com aquela intensidade louca que precede um abraço de despedida. E assim, todos os dias, por tantos meses, o fiz. Não há erro, nem ódio, nem desilusão. Apenas a perplexidade diante da partida. E o desafio de respeitar o direito do outro de partir e as contradições de querer fazê-lo voltar. Mas, não há como: ele assim o quis.

Chorei, tentei compreender, sair desgovernadamente pelas ruas da cidade, procurando algum lugar onde o tempo me fizesse esquecer. Vivi momentos de descrença: "só pode ser um pesadelo", pensei. Acordei várias madrugadas perguntando a mim mesmo o que havia acontecido com aquela minha vida que tanto amava e a qual me dedicava. Chorei novamente feito criança, nas ruas, ônibus, com a dor de uma saudade que não pode ser curada. Tentei sentir raiva, mágoa, mas, não fui capaz. Aceito, enfim, que você não partiu de mim, se ainda está no meu coração. Nem há como tirar daqui tudo que foi vivido: nem cabe em breves palavras.

Uma noite, lembro bem, você me encontrou com as chaves na mão, dizendo que ia embora, que não podia continuar, que precisava partir. Eu, chorando, perguntei se era mesmo essa sua decisão. Você estava certo, incorruptível. Mas, me lembrei que jamais queria e conseguiria sentir algo ruim por uma pessoa que me fez tão feliz e me proporcionou instantes que reconheci como mágicos. Te entendi e me assustou entender tanto alguém. Eu sei o que é, você, um dia, também soube. Você se foi, mas tenho a certeza de que se aquele ser lindo partiu, não mais será de ninguém. O que foi meu, coube a mim, assim como um rio, não se repetirá. Talvez nem mesma eu.

Ah, não queria que você fosse nem partisse assim, sem data de retorno ou desejo de reencontro. Mas, respeito sua vontade e o tempo, senhor dos fatos.

Tudo e nada mudou. O sol ainda se põe naquelas mesmas pedras... à noite, o mar divide sua beleza entre o céu estrelado e as plataformas, aos domingos, ainda joga o time de "Raça amor e paixão", tocam, nas festas, aquelas incríveis músicas que embalaram tantos risos e momentos que tiveram a eternidade de uma breve vida bem vivida. Sigo em frente, tentando ser feliz a qualquer custo. Deixo-te livre, parto de um sonho rumo ao desconhecido e novo cotidiano.

Eu só queria que você soubesse que sinto sua falta. E que suas chaves estão aqui, tristemente guardadas, cientes que não haverá volta, mas saudosas dos tempos em que eram envoltas por suas frias mãos.

Sim, você ficou, mesmo tendo partido.

Isabela Pimentel

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