domingo, 8 de agosto de 2010


O par perfeito

A busca incessante por um outro que nos preencha afetivamente e satisfaça todas as nossas necessidades amorosas e sexuais é fonte de muito sofrimento e de enorme frustração. Se por um lado adotamos ainda hoje a noção do amor romântico, cujo ideal é a perfeição regida pelos princípios da cavalaria (entre eles, a honra, a cortesia e a pureza), por outro, vivemos um tempo no qual tanto o individualismo, quanto a sexualidade livre são atributos muito desejáveis e altamente valorizados. Conciliar esses dois princípios antagônicos, o do amor cortesão e o da liberdade individual, não parece ser uma tarefa humana.

Ainda que nossa experiência cotidiana nos forneça evidências contundentes dessa impossibilidade, permanecemos aprisionados a imagem do encontro perfeito no qual todas as nossas fantasias românticas e sexuais se tornarão realidade e a partir do qual teremos nossa vida magicamente transformada. As novelas na tevê e os filmes de Hollywood nos alimentam diariamente com essa imagem e a fazem ressoar com grande intensidade no nosso inconsciente coletivo.

Agências de relacionamento, sites de encontro e atividades sociais com foco no namoro existem para facilitar e agilizar nosso encontro com o outro ideal, que por sua vez, também está à nossa procura. Questionários, perfis psicológicos, inventário de gostos e preferências e testes de compatibilidade conferem a racionalidade e a eficiência que nosso tempo exige e valoriza. E de fato muitas vezes funcionam, aproximando príncipes encantados, almas-gêmeas e caras-metades perdidas nos mundos real e virtual.

O problema é que quase sempre esse outro ideal é apenas a representação de nossas projeções e ilusões românticas, e não um ser humano real. No momento em que essas projeções perdem sua força, nos desencantamos dele e mergulhamos na frustração. Príncipes encantados e almas-gêmeas raramente sobrevivem à rotina e às complexidades inerentes às relações humanas.

O grande desafio que se impõe aos solitários não é, portanto, o de encontrar o par perfeito, mas sim o de descobrir na imperfeição do seu par (e de si mesmo) a possibilidade de um amor real e verdadeiro. Agências de relacionamento ajudam, mas não solucionam o problema.

Klecius Borges

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